segunda-feira, 11 de julho de 2011

Bola de Neve

Estranho é pensar que sepultei este festival baseado em seu velório de abre alas. Na verdade o pobre não estava se alimentando direito já fazia algum tempo. Downloads de programação que simplesmente não acontecem, site que provavelmente só funciona dentro da sala onde foi montado e apresentado, material de divulgação, mal feito, diagramado e pensado, que exprime toda uma dedicação em preto e branco e tons de cinza, talvez ligeiramente inspirada na tristeza do inverno neblinado do anoitecer ouro-pretano, quando tão docemente poderia ter experimentado as cores que os raios furtivos das seis da manhã roubam dos céus e colocam dentro das torres e das casas das Vilas de Minas.
Se tal velório de abre alas foi proposto por artistas locais (os quais se vi foram poucos) e envolvendo diversos grupos (que provavelmente estavam representados por no máximo uma pessoa de cada, a julgar pelo número de participantes) o “Quero a valorização da cultura, da arte, de nós” não passou de uma tentativa, e em acordo com uma crescente mancha no festival, uma tentativa errônea e mais uma vez fora de um tema tão abrangente e simples de lidar como este: Vilas de Minas.
O que “se pensa” que alguns buscam fazer, na verdade é traduzido por uma expressão: Mania de Grandeza, tentando fazer algo jamais visto (jamais visto mesmo, nunca havia visto tamanha balburdia para um cortejo, velório de abre alas) o que atrapalha a sutileza e o brilho do festival. Não se trata do que acontecia em festivais anteriores, se trata do que vamos trazer de realmente bom e funcional para este, pois até agora o que vi foi um festival em desacordo e caminhando sobre uma linha fina, incapaz de suportar seu peso.
Maravilhosamente temos mais duas semanas de eventos, oficinas, encontros com debates, temos? Brochante resume. Apesar de esdrúxula, não encontro melhor palavra para traduzir. Também não explicarei o que é essa programação para mim, pois de tamanha pobreza, me entristece pensar. Cultura não é uma palavra digamos... Presente. Não ha nada de novo, muito pelo contrário, tentativas frustradas de “enfeitar o velho”.
Circuito festival, festival com escola e afins, para mim não passam de novos nomes para velhas coisas, de “circo novo com lona velha”.
Ao contrário de uma busca verdadeira para renovar pessoas, estamos sim numa busca desenfreada por renovar a lona. As preocupações presentes nesse festival estão simplesmente relacionadas ao ego a ser massageado, e longe de empenho a favor da comunidade.
Adorei ter minhas criticas respondidas por uma pessoa de um patamar acima do meu, sinto-me agora no lugar onde sempre quis estar, “o lugar da identidade comum sem distinções.” Pela primeira vez deixo bem claro, tive o reconhecimento merecido que enquanto funcionário do circo não tive. Não são criticas de um lugar confortável, de quem quer estar dentro da panela de legumes cozidos. São criticas de quem por opção própria se assenta na janela dos espectadores e como muitos vê com tristeza o que se transformou o festival de inverno. Não se trata das dimensões do evento, trata-se do que fazemos por ele, sem medo, sem escolhas, sem dinheiro, sem poder, sem nada. Trata-se de uma palavra que ate agora não vi... Simplesmente amor, nenhuma causa chega a estas dimensões quando trabalhamos pensando assim. Não sintam-se feridos, eu não me senti pelas suas respostas. Façam agora disto uma ferramenta para melhorar o final do que começou torto. Esqueçam tudo e lembrem-se que festivais ficam para sempre na memória. Não transformem o de vocês numa vaga lembrança.

2 comentários:

  1. Grande Matheus! Começo dizendo que a crítica é fundamental à evolução das coisas e nisso acho o facebook fantástico. Só acho precipitadíssimo dizer "não gostei do espetáculo de abertura" significando "o festival vai ser uma merda". Tem aí no meio uma coisa que só pode ser resolvida pela frase "assim meu pai dizia..."(O Matheus escreve: Ouvia desde novo uma coisa). Eu estava falando com o Zedu, que tem a mesma opinião de vocês sobre o espetáculo de abertura e ele falou que foi embora logo depois do hino nacional. Aí ele só viu o cortejo de abertura. Não viu que, quando as pessoas entravam no teatro, havia um duo de viola caipira e baixo acústico e uma série de photos do Rugendas, que desenhou Ouro Preto, Mariana e Sabará há mais de 200 anos. Lá fora, os trompetistas de camiseta (do festival) eram músicos de uma das mais improtantes bandas da cidade. Que o hino foi com o duo e com uma puta cantora, que depois teve um contador de histórias, depois uma dupla de trapezistas, diversas intervenções dos atores, um número de dança com umas dez pessoas em cena, que no final, completando a abertura, voltavam os músicos do cortejo. Que, num dos vídeos projetados, fizemos uma homenagem a três pessoas das três vilas, Seu João Rapallo, que você deve conhecer, Ronáld, de Passagem de Mariana, seu Tião do Doce, de Ouro Preto e um rapaz de Sabará, que tem um trabalho social incrível. O que a gente disse com isso é que nos trezentos anos da cidade interessa mais as pessoas de hoje do que o passado. Mas isso não se comenta por aqui. O cortejo, por razões de produção, além de atrasar, teve que durar vinte minutos a mais do que duraria. Ficou longo e escureceu. Mas acho que há uma torcida pra que o festival seja uma merda. Ver o cortejo de abertura e chegar nesse lugar que chegaram? Você foi ao corredor das artes, no domingo? Festival na rua, teatro, dança, poesia, música, no fim da rua são josé esburacada? Você foi na exposição do coletivo Olho de Vidro? Acho que você aponta para uma coisa pessoal e se acerta num monte de gente que não tem nada a ver com isso. Você fala de Césares e vá pensar em produzir um evento de, sei lá, um milhão de reais, sem eles! A gente que fez a cerimônia de abertura rala pra caralho. Repito: é natural que não gostem. (Eu ia escrever que é bom que não gostem, mas não é o caso. Eu acho uma merda que não gostem.) Mas não há o menor sentido nessa idéia de que isso já é o festival. Vamos pelo menos esperar essa semana. Porque senão pode ser que o festival seja ótimo e você já esteja tão preparado pra jogar pedra que você nem perceba! Depois, critique mesmo. Mas não faça previsões. E não me venha dizer que meu trabalho sepultou uma coisa tão grandiosa quanto o festival de inverno. Não somos tão fortes pra isso. O festival não morre.

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